• Levi Augusto Vasques

Essa tal liberdade

Às vezes fico cá com os meus botões, em uma introspectiva íntima e sagrada que,

confesso, é quase sempre melancólica.


- É provável que a ignorância realmente seja uma dádiva – falei, deixando o

pensamento tomar forma e escapulir pela boca.


O carro dá um solavanco por causa do asfalto ruim, me fazendo bater a cabeça de leve

no vidro do passageiro. Foi o suficiente para me fazer submergir das profundezas do

córtex cerebral e me jogar na superfície do momento.


Percebi que estávamos chegando ao nosso destino. Percebi também que o impacto

acidental da minha cabeça havia sido notado pela motorista, que estava com um riso

disfarçado no canto da boca.


- Nossa, Gustavo, tô te achando muito pra baixo esses dias.


“Acho que você quer dizer que tem me achado muito pra dentro”, pensei sem falar

nada.


- Você era mais animado! - encerrou depois de uma pequena pausa que sugeria a

expectativa de resposta.


O bairro em que estávamos chegando era chique de uma maneira reconfortante,

característica marcante de um não-lugar.


- Esse bairro parece outra cidade, você não acha? – falei rindo de maneira meio

forçada.


É óbvio que eu estava evitando o comentário e a expectativa de resposta para uma

pergunta que, de fato, ela não chegou a fazer. Conhecendo bem a Luna eu devia ter

notado que, obviamente, a minha evasiva não vingaria.


- Parece que estamos em outra cidade e que eu estou com outra pessoa.


Mais uma pausa sugerindo que era a minha vez de falar. Permaneci em silêncio.


- Caraca, Gu. Quando foi que te abduziram? Porque você tá assim? – perguntou de

maneira mais direta, fazendo questão de desviar os olhos da via para me encarar.


- Tô bem, poxa. – Respondi coçando a cabeça, meio embaraçado, e depois prossegui –

Só meio reflexivo.


Eu apreciava muito a companhia da Luna e a maneira como ela se importava comigo.

Cultivava um bem querer por ela e acho que ela também me tinha alguma estima.

- Você não gosta de mim, né? Se abre comigo.


- Oxê! Que drama, dona moça. Às vezes os letárgicos são os que sentem com mais

intensidade, só não sabem como exportar esse sentimento.


De fato, eu acreditava no que respondi. Minha recente letargia já havia sido assunto de

uma verdadeira tese interna, que defendi de maneira ousada para uma banca dos mais

exigentes questionamentos.


Eu estava assim desde que percebi que a liberdade é uma falácia muito bem

construída ao longo de muitos milênios, uma utopia universal, um devaneio coletivo.


- Eu disse, Luna, que a ignorância é uma dádiva. E eu prefiro não privar você dela. Além

do mais, meu pensamento é muito lógico, cadenciado de uma maneira tal que tentar

falar não vai funcionar. Tenho o péssimo habito de perder a lógica quando verbalizo

pensamentos, sabe?


- Tá me chamando de burra? – disse mostrando a palma da mão na altura do pescoço,

como quem se sente surpreso e ofendido.


Eu ri gostoso da reação exagerada.


- Nossa, Luna, quem é que disse isso?


Ela também riu.


- Sabe, você realmente me fez bem. – Eu disse enquanto estacionávamos o carro –

vamos fazer o que viemos fazer.

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